Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens

19 de mai. de 2008

Cartografia Sentimental - Cap III a VI

No seu livro Cartografia Sentimental, Rolnik explora a história das noivinhas. Sendo que no capítulo III ela as compara. Dando três possibilidades: o quanto se deixa roçar pelo mundo; o quanto se permite falar por afeto; e pelo tanto que cada uma consegue ampliar o alcance da força gerada no encontro. Essas três possibilidades são relacionadas, respectivamente, pelo tanto que cada uma consegue aproveitar, cuidar da força gerada no encontro (o dos noivos) e sustentar essa força.
A autora remete-nos ao fator de afetivação em relação as noivinhas. E primeiramente, podemos considerar “o corpo sem órgãos e não o corpo orgânico, com seus significados a priori: corpo que vê e é visto pelo olho” (pág. 45) para afirmar, de certo modo, que a natureza do corpo de cada uma é dada pelos agenciamentos que faz, como práticas afetivas, aventuras, riscos. E seria assim o quanto a noivinha, ou qualquer outro ator, se deixa roçar pelo mundo, afetando e se deixando afetar.
Em segunda instância fala-se do quanto se permite falar por afeto. E que na verdade o mais importante dessa possibilidade é fazer passar os afetos. Até porque para Rolnik “fazer passar os afetos: é isso que parece gerar brilho.” (pág. 46). Há também a diferenciação pelo tanto que cada uma consegue ampliar o alcance da força gerada no encontro fazendo a atração, a força, um campo magnético. Que será cuidado por muito tempo.
Quanto as Linhas de vida, termo de Deleuze, e que pode ser entendido como um desenho mais abstrato e que delineiam movimentos de desejo, são três e compuseram o destino das noivinhas. A primeira linha, a linha dos afetos, é invisível e inconsciente. Pode ser entendida também como um fluxo que nasce entre os corpos. Possuindo, de alguma forma, longitude e latitude. Como ela é um fluxo, para estancá-la, só fingindo. Fingindo e indo a outros encontros. Já que ao longo da vida eles são inúmeros. O fingimento em questão salva alguns encontros. E desse modo temos afetos que escapam. E esses afetos escapantes traçam linhas de fuga.
A segunda linha é a linha de simulação. Que corresponde a um vaivém, a um duplo traçado. Que de certa forma se dá inconsciente e ilimitado. Tendo dois traçados, precisamos identificá-los. Então o primeiro é o da territorialização, que fala da produção de afetos para composição de territórios. Já o segundo é o da desterritorialização, que remete a algo que vai dos territórios para os afetos escapando. De alguma forma por essa linha da simulação temos um momento de oscilação: de crise e encantamento. Pra este há algo irreconhecível, de estranhamento e com perda de sentido. Entretanto, para aquele é onde isso vinga e há um reconhecimento, uma familiaridade e até uma oscilação.
Mas de algum modo estamos num caminho difícil de caminhar. Essa oscilação gera angústia, com três fases: ontológica, existencial e psicológica. E essa angustia vai tentar abolir a ambigüidade, e ela define as diferentes estratégias do desejo. Por ser, para a angustia, a face ontológica o medo de morrer, a existencial o medo de fracassar e a psicológica o medo de enlouquecer. Desse modo as estratégias de desejo estão relacionadas a essas três faces. De algum modo a angustia faz com que os desejos tracem estratégias para vingarem.
A terceira, e ultima, linha de vida é a linha dos territórios. Vale ressaltar, então, que a linha anterior nada mais é que o “meio termo” entre a primeira e a terceira. Essa que é finita, visível e consciente. E que pode ser caracterizada como o campo de visão, o plano da representação, algo como uma espécie de desenho. “De qualquer maneira, seja qual for o movimento pelo qual nos introduzimos na abordagem do desejo, sempre encontramos, ao mesmo tempo, os outros dois movimentos. Não há simulação (2º movimento) que não implique, simultaneamente, por um lado, atração ou repulsa de corpos gerando afetos (1º movimento) e, por outro, formação de territórios (3º movimento). Assim como não há território (3º movimento) que não seja trabalhado por desterritorializações, operadas por afetos que lhe escapam, nascidos do encontro com outros corpos ou com os mesmo corpos, que se tornaram outros: linhas de fuga (1º movimento). Como tampouco há linhas de fuga de afetos (1º movimento) que não tentem se simular (2º movimento) e agenciar matérias para a constituição de território (3º movimento), a ponto de nem dar para dizer quem vem primeiro.” (págs. 52/53). E portanto, se nem dar para dizer quem vem primeiro é necessário que o corpo vibrátil sinta esse limiar.
Outro ponto importante para Rolnik é o de que só há real social. E ela afirma que não existe sociedade que não seja feita de investimentos de desejo nesta ou naquela direção, com esta ou aquela estratégia e , reciprocamente, não existem investimentos de desejo que não sejam os próprios movimentos de atualização de um certo tipo de prática e discurso, ou seja, atualização de um certo tipo de sociedade.

Resenha - Cartografia Sentimental

ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.

Capítulo I e II

O desejo é o maior ponto que se encontra em Rolnik. Ela o define como o processo de produção de universos psicossociais, os quais não totalizam, não são dados nem infinitos, mas que se desdobra em 3 movimentos simultâneos.

No primeiro movimento, enfoca o corpo vibrátil, o corpo sendo tocado pelo invisível das experiências. Nestas ultimas, os corpos são tomados por uma mistura e uma movimentação de afetos, de energia e de intensidades. A todo o momento, tais intensidades e jogo de afetos fazem com que nós busquemos formar máscaras para nos apresentarmos diante de uma situação que “simulam” nossa exteriorização, e que tomam o corpo em matérias de expressão. Nosso corpo tocado pelo invisível, então, percebe apenas a máscara resultante do movimento de simulação.

As intensidades experimentadas numa situação (a nível de exemplo, a autora se baseia numa situação-encontro) vão compondo um plano de consistência: os afetos tomam corpo, delineiam um território, mapeiam aquela situação e tudo que está contido nela. O corpo invisível percebe que tal composição é efeito de uma série de imperceptíveis processos de simulação. Esse processo de simulação vai caracterizar o segundo movimento, no sentido de “para onde as intensidades vão”, qual desdobramento elas vão tomar, se elas vingam ou se elas goram. Encontramos isso no terceiro movimento.

Se as intensidades não existem e estão sempre efetuadas em máscaras, elas podem representar um estado de graça, um devir, um campo magnético, algo que aposta no novo (aquilo que vinga). Aqui a máscara funciona como condutor de afeto, tem credibilidade, é viva e real. E do mesmo modo que as intensidades podem, ao contrário, esfriar, criar desconforto, perder a graça, contrair e enrijecer o corpo. A simulação que gora geralmente se dá, fala Rolnik, para evitar a sensação de desorientação e do medo de se despedaçar.

Durante o processo de produção do desejo, nesses movimentos imperceptíveis, o jogo de afetos e de intensidades pode proporcionar a criação de outras máscaras, na medida em que ele é o artifício para as realidades em que estamos e vamos viver . A procura pelo verdadeiro perde o sentido até aqui e, a única pergunta caberia é se os afetos estão ou não podendo passar.
A dinâmica das ondas e das vibrações desses afetos, o estado intensivo da potência de afetar e ser afetado desses corpos, o conjunto de afetos que os preenche a cada momento. A esta definição, Suely denomina a dimensão da latitude das experiências. E acrescenta que nessa dimensão, devemos encontrar o nosso fator de a(fe)tivação. Em outras palavras, aquilo que desperte nosso corpo, que nos permite a habitar o ilocalizável, aguçando a nossa sensibilidade.à latitude ambiente, e possibilitando que nós nos aproprie do espaço, do território. Estamos falando, então, que as cartografias vão se desenhando ao mesmo tempo em que os territórios vão tomando corpo: a produção do desejo e de realidade é ao mesmo tempo material, semiótica (atingindo o plano dos desejos) e social.

18 de mai. de 2008

A prática do cartógrafo e a influência psicanalista

Rolnik, no capítulo VII de seu livro Cartografia Sentimental, indaga sobre a prática de um cartógrafo, que deve estar atento às estratégias do desejo, em qualquer que seja o fenômeno da existência humana, não importando as referências teóricas. O cartógrafo absorve matérias de expressão de qualquer procedência para compor suas cartografias, já que: "Todas as entradas são boas, desde que as saídas sejam múltiplas" (pág.66). Seu critério de escolha é qualquer que seja a matéria de expressão que possibilite da linguagem facilitar a passagem das intensidades que percorrem o corpo no momento do encontro dos corpos. A linguagem promove a criação de mundos e além da transição para novos mundos.

Tendo em vista que a função do cartógrafo é compor territórios existenciais, ou seja, construir realidades, ele luta muito mais com o entre estar vitalizante ou destrutivo e ativo ou reativo, do que o dito falso ou verdadeiro e teórico ou empírico. O cartógrafo não teme o movimento, vibra e encontra vias para a existencialização. E os procedimentos não importam, pois quaisquer que sejam eles, inventa-se em função do contexto, não seguindo nenhum protocolo normalizado. O perfil do cartógrafo é definido de acordo com sua sensibilidade, e assim podemos afirmar que ele se utiliza de um composto hibrido, o olho e o corpo vibrátil. Ele apreende o movimento do que acontece entre o fluxo de intensidades e a representação. O fluxo é o que escapa do plano da organização de território, desestabilizando representações desestabilizando representaçe o floxo e as intensidadese encontrar sempre ; e estes, de forma contrária, estancam os fluxos, canalizam as intensidades e dão sentido a essas intensidades. Este movimento de tensão é o desafio permanente do cartógrafo, que se equipara, por sua vez, a coexistência do macro e micropilítica que são complementares e indissociáveis. É esse movimento que se formam inúmeras estratégias da coexistências e mundos desses dois blocos.

Mas de qualquer forma, Rolnik se pergunta: que tipo de equipamento o cartógrafo leva a campo? A autora explica que o manual desse desbravador, existe um critério, um princípio, uma regra e um breve roteiro de preocupações, que se definem e redefinem constantemente. No que diz respeito ao critério utilizado, é o grau de intimidade ou o grau de abertura para a vida que cada cartógrafo se permite a cada momento. Sobre o princípio, este é extramoral, ou melhor dizendo, o princípio é um antiprincípio, pois o parâmetro para tanto é a expansão da vida ou o quanto em meio às situações da vida encontra formas para efetuação e para isso estes princípios que devem estar sempre mudando, devem ser vitais e não morais. A regra estará sempre em nome da vida e daí são diversas as estratégias inventadas, mas que devem respeitar um limite suportável, de acordo com o momento e a intimidade. Trata-se de um limiar de tolerância para a desorientação e reorientação de afetos, ou seja, para a desterritorialização. A avaliação desse limiar de desencatamento (o mesmo de limiar de tolerância) é saber o quanto se suporta em cada situação, a partir das máscaras que possui, no momento de perda de sentido e desilusão, em que existem afetos recém-surgidos que precisam ser liberados. É nesse momento que se inventam ou buscam matérias de expressão e se criam novas máscaras, novos sentidos. A regra do limiar de desencantamento, é uma regra de prudência que permite discriminaros graus de perigo e de potência.

Então, percebe-se que a prática do cártografo se encontra no espaço de exercício ativo das estratégias das formações de desejo no campo social, de emergência de intensidades, de incubação de novas sensibilidades e linguas. A análise do desejo, nesse viés, é a forma de escolher como viver, dos critérios com os quais o social se inventa. Por isso a prática do cartógrafo é também política , sendo que não envolvida num jogo do poder com relações de soberania ou dominação, nem está alçada na lógica da macropolítica que é da totalidade, identidade, entre outros. Mas com a micropolítica, que está relacionada às técnicas de subjetivação, ou estratégias de produção de subjetividade, uma dimensão fundamental da produção e reprodução do sistema. Também não significa dizer que a prática do cartógrafo na análise do desejo seja da libertação desse desejo, como se fosse algo natural. Ao contrário, o desejo nada mais é do que artifício que associa afeto e linguagem na configuração de existências singulares. O que o cartógrafo faz, então, é a ampliação do alcance do desejo, potencializa-o participando da produção da sociedade ou criação de mundos tanto quanto necessários para facilitar a passagem das intesidades geradas nos encontros aletórios vivenciados no cotidiano.

A atividade do cartógrafo, além de política, é ética e daí o princípio para esta função ser um antiprincípio, pois não envolve a moral em suas andanças. Ele, o cartógrafo, nada tem a ver com os mundos que se criam, mas com o cuidado ao escutar as vidas expostas. A ele não cabe sustentar valores ou qualquer coisa que seja, mas a vida e seu movimento de expanção. Quanto às possibilidades dessa prática cartográfica, existem algumas facetas ou máscaras com nomes respectivos, que variam de acordo com as necessidades estratégicas a que se está envolvido. São pelo menos cinco nomes indicados por Rolnik: cartógrafo (já conhecido) mesmo como aquele que não revela os sentidos, mas os cria, através dos olhos e corpo vibratil; psicólogo social quanto a indissociabilidade entre o psíquico e o social; micropolítico pelo caráter político e pela função de análise da produção de subjetividade; analista do desejo por sua pártica estar associada ao do psicanalista, no trabalho da escuta; e por fim o esquizoanalista que, não por fazer apologia ao esquizofrênico, mas pela análise do desejo ser também uma análise das linhas de fuga, linhas esquizo por onde desmancham os territórios. Nesse sentido, tenta-se alertar para que a análise do desejo não se reduza a uma representação do ego ou unidade de pessoa, à escuta pelo olho e àquilo que ele alcança.

Rolnik destaca o capítulo VIII a influência do psicanalista na função do cartógrafo, melhor dizendo, a cartografia nasce com a psicanálise ao existir um espaço que inicia o exercício do pensamento como produção de cartografia. Com isso ocorre um movimento de ruptura do exercício do pensamento tradicional ocidental, que no caso está envolvido com a busca pela verdade e por um pensamento marcado pela enfase no macro, na representação. Foi a partir de Freud que foi possível o pensamento acessar o corpo vibratil e a micropolítica das desterritorializações e simulações. Ele introduziu uma prática de iniciação ao pensamento que emerge do movimento invisível dos afetos ao possibilitar seu acesso através da linguagem. Dessa forma a desterritorialização é vivida não como uma carência ou ameaça, mas uma invenção. Ao pensamento é aberta a possibilidade de ultrapassar os limites do visível e participar da processualidade de elaboração de cartografias e constituição de sentido, em meio às linhas de fuga, inventando saídas a cada momento que existem impasses de sentido. No final das contas, a maior colaboração que Freud pode dar a tal exercício foi, não no repertório (que é datado), ou nos procedimentos (que são meros rituais esvaziados de sentido), mas a escuta de cartógrafo.

Enfim, a análise do desejo é um exercício de criação de um campo que se possa conquistar intimidade, vivenciando e reconhecendo as formas de resistência à intimidade que é sabotada pelas estratégias que o desejo monta, que nada mais são do que desperdício de vida. Coragem é vivenciar os vácuos de território, afrontar as rupturas de sentido, sem recorrer aos velhos vícios e buscar matérias de expressão para administrar as partículas de afeto enloquecidas, dando-lhes sentido. Ao administrar tais partículas, fazer um plano de consistência, fazer a passagem dessas intesidades e descobrir que não existe rosto atrás da máscara, ou seja, não existe verdade. Existe é a necessidade de criar novas máscaras. Quem não enfrenta as desterritorializações e encaram o processo reterritorializar com novas máscaras é porque não tem vontade de nada, ou seja, a morte, ou mesmo a loucura, que são o resultado da impossibilidade de não enfrentar o vazio.
Enfrentar e viver a repetição de tudo isso é poder saber/sentir que dá para conviver com o finito ilimitado. Por isso a análise e ilimitada, porque ilimitado é o movimento de simulação. Mas nem por isso a relação analista/analisando deixa de ser limitado, pois se aceita o caráter ilimitado da análise em decorrência da ilimitada produção de universos, sempre finitos, que são os desejos. Além disso, o psicanalista cartógrafo deve saber que seu campo, por ser atravessado por correntes coletivas de sensibilidade, mundos em transformação, não pode grudar em mundo algum como parâmetro para sua escuta, pois os modos de produção de subjetividade mudam de acordo com os tempos na história.

8 de jan. de 2008

RUMO À IMORTALIDADE E À VIRTUALIDADE: Construção científico-tecnológica do homem pós-orgânico (Paula Sibilia)

Paula Sibilia, seguindo reflexões do sociólogo português Hermínio Martins, apresenta interessantes questionamentos sobre atuais processos de hibridização homem-tecnologia pelo viés de uma tradição “fáustica” do pensamento ocidental, uma vez que, como apontada no texto, essa relação pretende uma ultrapassagem das limitações da organicidade, destacando a construção de um ser híbrido “pós-biológico”, misto de corpo humano e artifício técnico. O homem pós-biológico almeja se desvincular das restrições espaciais e temporais ligadas à sua materialidade orgânica, para atingir a virtualidade e a imortalidade. Nesta lógica, o corpo deve tornar-se imortal para se adaptar (Stelarc), no contrário, o corpo humano, na sua antiga configuração biológica, estaria tornando-se obsoleto. Considerando que a evolução tecnológica seria dez milhões de vezes mais veloz do que a evolução biológica, como pretender que o velho corpo humano não se torne obsoleto?
Em oposição à tradição “prometéica”, que pensa a tecnologia como a possibilidade de estender e potencializar gradativamente as capacidades do corpo humano, a corrente fáustica enxerga na tecnociência a possibilidade de transcender a própria condição humana. O homem-pós-biológico estaria em condições de superar as limitações impostas pela sua organicidade, incluindo as doenças, o envelhecimento e até a morte. O “cyborg” seria o agente da sua própria evolução pós-orgânica. Entregue às novas cadências da tecnociência, o corpo humano parece ter perdido sua definição clássica, tornando-se permeável, manipulável, projetável. Mark Dery acrescenta que estamos em condições de transcender as limitações das espécies particulares, combinar e programar as virtudes de diferentes espécies, ou seja, a criação de novos seres transgênicos. Em outras palavras, o homem agora tem condições de se auto-criar, de produzir seu próprio corpo, administrando a sua pós-evolução, através do arsenal de artifícios da tecnociência. Que tipo de saber é esse, que faz do corpo humano um objeto da evolução pós-biológica? A título de provocação, a autora compara tal fenômeno com o famoso mito Frankenstein por ser aquele rapaz que conhecia o suficiente de magia para iniciar um processo, mas não o suficiente para interrompê-lo no momento apropriado.
A tradição fáustica constitui uma das linhas de pensamento sobre a técnica, que pode ser detectada nos textos de diversos autores dos séculos XIX e XX. Nela é possível detectar fortes tendências “gnósticas”, que rejeitam a organicidade e a materialidade do corpo humano, procurando um ideal ascético, artificial, virtual, imortal. A tradição fáustica esforça-se por desmascarar os argumentos prometéicos, afirmando que o caráter da ciência é essencialmente tecnológico tanto no plano conceitual quanto no ontológico. Existiria um “programa tecnológico oculto” no projeto científico, explica Martins. Apontando para uma ruptura com relação ao pensamento moderno, o sociólogo declara que o atual projeto tecnocientífico está norteado por um impulso insaciável e infinitista para a apropriação ilimitada da natureza, tanto exterior quanto interior ao corpo.


IMORTALIDADE: para além do TEMPO humano.

“Tecnicamente, não haveria mais razão para morrer (...) O corpo não precisa mais ser consertado; suas peças serão simplesmente repostas”. (Stelarc)


Várias limitações biológicas ligadas à materialidade do corpo humano pertencem ao eixo temporal da existência humana. A tendência fáustica, nesse sentido, está bem representada pelas atuais descobertas e projetos na área das biotecnologias (transgênicos, clonagem, genoma), que colocam o arsenal cientifico-tecnológica na luta contra o envelhecimento e a morte. Segundo o próprio Hermínio Martins, as biotecnologias criar novas formas de vida. É a vocação transcendentalista que enxerga no arsenal tecnocientífico a possibilidade de ultrapassar as limitações inerentes à condição humana.
Sibilia coloca que, segundo Martins, a tecnociência contemporânea redefine as antigas fronteiras de seres naturais como matéria puramente manipulável, instalando a criação de combinações do orgânico e do inorgânico, do natural e do artificial, do humano e do não-humano. Nesse marco, a sociedade atual assiste ao surgimento das mais variadas “visões tecnofânicas”, aspirantes a um saber quase divino, capaz de controlar a vida superando todas suas limitações tipicamente orgânicas. Inclusive a mais fatal de todas elas: a mortalidade. No processo de hibridização com as máquinas, o corpo humano poderia se livrar da sua natural finitude.

VIRTUALIDADE: para além do ESPAÇO humano
Outro leque de limitações que as potencialidades orgânicas do corpo está inscrito no eixo espacial da existência. O atual “imperativo da conexão” representa esta tendência, estimulado pela abundante oferta de dispositivos e serviços da área informática e das telecomunicações. O corpo humano hoje é entendido como informação: ele é um banco de dados, um código, um conjunto de instruções programáveis. Nesse sentido, ele também pode sofrer upgrades, pois as criações tecnocientíficas prometem libertá-lo dos seus limites biológicos, obsoletos, superando assim a sua organicidade animal para se tornar mais compatível com o tecnocosmos que o circunda.
Estaríamos deixando de ser robôs para virarmos cyborgs? Enquanto o corpo-máquina, característico da era industrial, fica obsoleto, começa a surgir o corpo-informação, o sujeito da sociedade pós-industrial. Nesta nova face do capitalismo global, cuja base já não reside tanto nos produtos materiais quanto na informação, com a ênfase perpassada da produção para o consumo, assistimos a uma virtualização generalizada dos valores.

Neo-Gnosticismo
Transcender (radicalmente) a humanindade, intenção clara do texto, trata-se de ultrapassar os parâmetros básicos da condição humana (finitude, contingência, mortalidade, corporalidade, animalidade, limitação existencial) aparece até como uma das legitimações da tecno-ciência, conforme Hermínio Martins. É fáustico o tecno-transcendentalismo associado aos discursos sobre o nascente homem pós-biológico, e ele está notoriamente impregnado daquilo que Martins denomina gnosticismo científico-tecnológico: horror ao orgânico, repugnância pelo corpo, aversão pelo natural. A tecnologia informática e das telecomunicações parece disposta a realizar sonhos neo-gnósticos, pois, com a sua tendência virtualizante, a aparelhagem digital converte tudo em “informação”, inclusive os próprios corpos humanos.
O texto adota a terminologia proposta por Martins que é neognóstica esta rejeição da materialidade orgânica e esta vontade de “virar luz”, ultrapassando as limitações temporais e espaciais ligadas ao fato de sermos demasiadamente orgânicos. De acordo com esta tendência, então, estaríamos virando pós-orgânicos e, com isso, “pós-humanos”, apontando para a imortalidade e a virtualidade.

Dos “corpos dóceis” aos “corpos ligados”
Quais são as implicações políticas e econômicas destes processos, numa sociedade voltada para a produção de consumidores dos mercados globalizados? Que tipo de corpo e que tipo de sujeito estão sendo criados na nossa “sociedade tecnológica”? Parece-me que o que é aquilo que estaríamos nos tornando, ainda é uma pergunta sem resposta. O direcionamento da criação dos seres humanos é a grande interrogação que nos restaria.
Ao mudar o foco da produção para o consumo, a sociedade ocidental já não parece precisar tanto daqueles “corpos dóceis” destinados a alimentar aos serviços industriais, quanto de novos tipos de corpos dispostos a consumir os produtos pelo novo capitalismo de superprodução. Corpos que intimam com a tecnologia: corpos ligados, conectados, hiper-estimulados e aparelhados pela tecnociência, permanentemente ameaçados pela obsolescência; corpos fáusticos.
Sobre as sociedades de controle, indicou-nos Deleuze que as novas tecnologias inauguraram instâncias subjetivantes capazes de substituir as velhas instituições das sociedades disciplinares. Caberia refletir, então, acerca do papel desse novo sujeito aqui analisado, o homem biotecnológico e teleinformático de vocação fáustica. Quais seriam as suas limitações, e quais as suas opções de resistência e de criação? E, por fim, a grande indagação do “Como manter-se vivo?” - Replicante Roy (Blade Runner), aqui não é mais a mera questão, mas sim o porquê e para que se manter vivo, se tudo a que nos cabe ou a que nos é útil é manipulável, controlável; se podemos recriar, combinar, redefinir novas espécies ou ainda nosso próprios e novos corpos?

7 de jan. de 2008

MINITUARIZAÇÃO DO SENTIR VIRTUALIZADO: DA CONDIÇÃO HUMANA À CONDIÇÃO CYBORG


Helena Taveira vem trazer à tona principalmente com o seu texto a questão da fusão do tecnológico com o biológico, entre o orgânico e o mundo mecânico, a metamorfização do ser real com o ser virtual, ou seja, a maior cumplicidade na co-existência entre essas duas realidades. Vem problematizar a condição daquele que está na fronteira, ou seja, nós que nos vemos entre esses dois espaços e passamos por uma gama de modificações, que envolve tanto o corpo como as emoções, indagando ainda se o mundo mecânico seria um colaborador ou concorrente do ser humano.

O mundo passou por uma terceira revolução tecnológica, que fez crer no computador não mais uma simples máquina ou sistema, indo além principalmente depois da inserção da Internet. Aquilo que era visto como meramente eletrônico, passa a ter um caráter de subsistência, pois os utilizadores vão atrás desse meio, inserindo-se cada vez mais nessa cultura característica de um sistema tecnológico, que toma conta com suas linguagens e símbolos bastante específicos. É nesta revolução do acoplamento das tecnologias do mundo virtual aos limites do mundo real, produz uma reformulação das coordenadas espacio-temporais, associada a idéia de movimento, que fez superar a distância através da velocidade, sendo que aparentemente rejeitando o corpo. Mas não se trataria disso, pois autores como Claudia Giannetti afirma que Internet estaria não excluindo o corpo desse processo, mas dinamizando corpos.

No entanto, ao mesmo tempo em que se ratifica a absorção do tecnológico pelo orgânico, pensadores como Virilio possuem uma visão antagônica, com uma crítica clara a uma suposta supremacia das tecnologias inseridas no virtual sobre o real através das minituarização dos componentes do primeiro. Estaria se falando do declínio da presença física em proveito de uma presença imaterial e fantástica. Para Taveira, torna-se necessário desmistificar o pensamento apocalíptico de tal tecnofobia. Nesse caso, estaria se valorizando a mutação da composição orgânica em síntese numérica quando se inserir no mundo binário numa imaterialidade do corpo ou espectralidade. Poderia se pensar que o ser humano conseguiria adquirir atributos de um Deus divino, ou no mínimo poderia estar fascinado pelo deus-máquina. Mas na verdade o que se enfatiza aqui é a liberdade de ação e experimentação dessa nova entidade corpórea que será mais flexível, que acarretaria dentro desse processo não só uma perda da indentidade, pela reciclagem das diversas epidermes que pode corporalizar, como a total aniquilação do comprometimento, pois se eximiria de qualquer responsabilização pela subsistência do meio que vive momentaneamente (me lembrei dos hackers...).

As possibilidades que o virtual traz, com seu campo movediço, intinerante e flutuante; aliado a eliminação de algumas limitações “terrenas” na translação incorpórea do estar em qualquer parte em tempo real, faz pensar que o mundo já não nos é suficiente e a possibilidade de ultrapassar a histórica adequação ao sedentarismo, com o retorno do nomadismo. Giannetti ressalta que isso é possível principalmente pelas nossas capacidades naturais, a viagem mental, por mais que o corpo permaneça imóvel a mente pode navegar.

Ainda assim é estritamente necessário que o mundo virtual incorpore alguns traços comuns da nossa realidade, de maneira a se tornar mais complexo, utilizando da associação das tecnologias que atenua a passagem entre as duas realidades construída pelo fenômeno da interatividade, responsáveis pela transmutação de espectadores (participantes do mundo real) em utilizadores (participantes no mundo virtual). Existe até o esforço de mediações possíveis como captadores de sentidos, sensores e teledetectores provindas da produção microeletrônica, o que faz o ser humano um “homem-prótese”. Porém só a mente viaja, enquanto a matéria física não se desloca efetivamente. Mas se percebe em pesquisas realizadas com intuito de impossibilitar qualquer sensação no ser humano, que seja qual for a viagem que a mente queira fazer pelo mundo virtual, afetará incondicionalmente o corpo físico e terá sempre que enviar a este corpo físico o mais ínfimo sinal, para que ele possa se relacionar com o dispositivo intermediário que são o mouse, teclado, entre outros. Por isso, a relação do homem real com o mundo virtual com o processo de desmaterialização do corpo físico em corpo mental com todos os tipos de prolongamentos, contribui para a estreita relação de parceria visto serem fundamentais para a imagem humana sobreviver no mundo virtual.

Chegando a conclusão da perfeita inserção do mundo virtual no real, Taveira admite que se deva formar, pelo menos a nível corporal, uma si (ir)realidade homogênea, tendo em vista que o corpo seria uma unidade indivisível, já que as tecnologias tanto nos colonizou como nós as colonizamos. Com isso surge a questão: não estaríamos nos tornando cyborgs? Estaria se falando nesse sentido de um homogeneização do mundo real com o virtual, com o auxílio das já mencionadas, próteses e prolongamentos, que torna possível potenciar capacidades inatas que se viam até então como entidades pré-existentes e limitadas. Estaríamos então sendo substituídos por equivalentes eletrônicos? A autora Stelarc propõe com seu projeto “Stimbod” algo semelhante, em que parte do corpo estariam conectadas a sistemas de estimulação muscular, que torna possível mover uma parte do corpo a partir de uma cidade longínqua, ou seja, à distância pela rede. Tratar-se-ia de uma adaptação do corpo à máquina ou da máquina ao corpo? Leva-se em questão com essa discussão dois pontos intrigantes: um é o cyborg como um projeto de um corpo mais completo e outro do corpo ser fragmentado pela tecnologia. Ao mesmo tempo, está se colocando também em pauta as múltiplas potencialidades que um corpo pode adquirir, mas questiona-se a capacidade de controle.

Aliada a estes questionamentos, ainda quanto ao assunto da corporeidade, supõe-se a situação de se substituir o corpo mental por imputs e outputs, como meio de melhorar a atuação do ser humano no mundo virtual e expandir a sua consciência em tal realidade. Esta possibilidade não seria uma decisão, provavelmente, irreversível de desvanecimento e desmaterialização da experiência consciente e cognitiva, tão peculiar do ser humano? Mesmo que ainda não seja possível responder a essa pergunta, sabemos que ainda dependemos de nosso corpo para qualquer que seja a relação, ou no mundo real ou virtual e para almejar tal façanha seria necessário não só componentes sensoriais similares aos dos ser humano como de determinadas capacidades humanas que permitem que a máquina manipule uma diversidade de informação. Ora, estas questões não estão tratando apenas de uma biotecnologia, mas de uma bioética. Tal atitude de eugenismo (combinação de influências hereditárias e ambientais, afim de melhorar as qualidades físicas e morais da raça humana – Michaelis, 1998), aparece com freqüência em nossa sociedade contemporânea através das inúmeras possibilidades que a tecnociência fornece. Mesmo assim, o mente ainda permanece muito enraizada na territorialidade e por sua vez, o comportamento emocional ainda é específico do mundo real, nos fazendo perceber que nunca se poderá misturar completamente na virtualidade.

Mas será que é possível fazer um sistema tecnológico exprimir emoção? Será mesmo a emoção sentida por ele próprio? E se levarmos em conta o fato do ser humano sentir empatia por uma máquina? Essas questões me fazem lembrar do filme “O Homem Bicentenário”, interpretado pelo ator Robin Wiliams ou mesmo do filme AI – Inteligência Artificial que questionam se ser humano seria capaz de viver com andróides tal qual com um ser humano. Temas como esse mais uma vez mexem com a bioética, pois estaria se propondo incutir pacotes de emoções pré-definidas ou programas numa máquina fazendo com que um sistema binário fosse capaz de se emocionar, análogo ao humano. Apesar desse intuito, muito provavelmente a coisa funcionaria sob certos limites, existindo apenas, por parte das máquinas, o reconhecimento de expressões emocionais e por vias disso estes iriam responder com uma emoção pré-programada. Ainda assim, a situação parece completamente díspar de um mecanismo biológico do ser humano, pois não se chegaria a ter o inconsciente emocional ou mesmo a espontaneidade do processo emocional.

Já quanto a uma possibilidade de nos emocionarmos com um fluido binário que circule no espaço virtual, ainda existiria o impedimento da espontaneidade, já que esta seria constrangida pelos tais sistemas auto-organizados que se baseia pelo que já anteriormente lhe for atribuído. Assim, não bastaria mimetizar o processo emocional do ser humano, mas criar mecanismos verdadeiros de feedback, para que as emoções coincidam simultaneamente com as condições físicas e as exigências feitas pelo ambiente. De qualquer forma, as máquinas só poderão ter um sistema de mecanismos emocionais, e não sentimentos reais, mas que serviriam para proporcionar maior naturalidade e menos rigidez na ponte entre o homem e a máquina. Nesse sentido, se evitaria para que esta relação não fosse apenas um monólogo intercalado pelos tempos de respostas, tais como proporciona os softwares que são como entidades coletivamente massificadas.

Existiriam com esse incremento às máquinas, mecanismos que permitam um conhecimento e entrosamento mais peculiar e intimo com seu utilizador, buscando individualidade nos seus serviços. Preza-se também nesse processo, o equilíbrio não só entre o mecânico e o orgânico, homem e a máquina, mas também para que não ocorra nenhum sentimento de domínio ou pretensa por parte de um ou outro. Assim, em meio a tantas propostas e devidos cuidados, a relação entre o homem e a máquina, entre o orgânico e o tecnológico, demonstra não requerer um envolvimento tão significativo, apenas necessário, para que produza modificações pertinentes não na natureza do homem, mas na forma como ele vê a si próprio e ao meio que se relaciona com as máquinas. Desta maneira, não só se estará potencializando as máquinas, como quem dela usufrui.